quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Cuidado! Vinhos Argentinos Contaminados com Fungicida!


Vinhos Argentinos Contaminados com Fungicida

O fungicida natamicina foi encontrado nos vinhos Fuzion, Santa Julia, em seis outros vinhos argentinos e dois da África do Sul, na Alemanha. 120 mil garrafas de vinho argentino foram retiradas do mercado alemão. Todos os vinhos argentinos destinados à Europa estão bloqueados nas alfândegas. Metade dos vinhos argentinos coletados para análise apresentou a presença do pesticida, que é utilizado para a limpeza das adegas na Argentina, o que permitiu a contaminação mesmo em vinhos orgânicos. Em outubro e novembro foi constatada a presença da substância ilícita, o que gerou o bloqueio.


A lista (veja abaixo) mostra que a contaminação ocorre em diversas regiões atingindo os da Família Zuccardi de Mendoza, mas também da distante Patagônia. A questão já vinha sendo acompanhada por Wines of Argentina que contratou o laboratório bordeles Excell para identificar os focos desta poluição. Segundo o especialista francês Pascal Chantonnet, do Excell, "a natamicina pode ter sua origem na utilização de produtos para desinfetar as adegas, garrafas ou mesmo rolhas, é por isto que o encontramos mesmo em vinhos orgânicos", confirma. Suzana Balbo, enóloga e presidente da Wines of Argentina, pediu aos produtores que cessem imediatamente de utilizar o detergente NAT 3000, que contém o fungicida, na limpeza de barris e mangueiras, disse ao Los Angeles on line. Segundo Guillermo García do Instituto Nacional da Vitivinicultura Argentina, os resíduos encontrados “não representam nenhum perigo para a saúde”.


Natamicina ou paramicina é um antibiótico fungicida, utilizado para eliminar fungos e leveduras. A Organização Internacional do Vinho e da Vinha, OIV, não autoriza seu uso, mas a legislação da Argentina permite seu emprego na limpeza da adega e seu material. A piramicina é permitida na indústria alimentar, como em certos queijos e frios sob o nome de conservante E235. A natamicina também é ministrada enquanto medicamento para o homem e vendida em farmácias. Em fortes doses pode provocar náuseas e diarréia.

Lista dos vinhos retirados do mercado alemão:

Argentina:

Santa Julia, 2008, Mendoza, Cabernet Sauvignon, número de lote L09-184-09
Fuzion 2008, Mendoza, Tempranillo, Malbec, número de lote L09-198-21
Santa Andrea, 2008, Mendoza, Malbec, Cabernet Sauvignon, número de lote L-56659
Villa Paola, 2008, San Rafael, número de lote 01/2009.
Villa Atuel, 2008 San Rafael, Syrah, Merlot, número de lote L-WT1377
Légende de Polo, 2007, Mendoza, Malbec, número de lote L 76605
Terra Nova, 2008, Mendoza, Malbec, número de lote L: 90.0789
Maranon, 2009, Malbec, Mendoza, número de lote L9289-0D72
Cruz, d'Indio, 2007, Belle Malbec Añelo, Neuquen - Patagônia, Lote número L-9168
Cruz, d'Indio, 2007 Malbec Añelo Neuquen - Patagônia, lote número L-9139

África do Sul:


W.O. Constantia, 2009, Syrah Rosé, número de lote L14336-2
WO Constantia 2009, Blanc de Noir, L14335 número de lote-4


fonte: http://www.jblog.com.br/conexaofrancesa.php

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Changyu - o vinho chinês!

Você sabia que a China produz vinhos finos?
Eu sabia, mas nunca imaginei que fosse provar um...

Pois bem, no dia 03/02 eu e o Cristiano do blog Vivendo Vinhos fomos convidados pelo nosso amigo Tiago da loja Rosso Bianco para provarmos uma garrafa exclusivíssima de um vinho chinês.

Ao chegarmos na loja, começamos o habitual bate papo antes de iniciarmos os “trabalhos”. Havia muita expectativa no ar, pois provar um vinho chinês seria uma grande novidade para nós e não sabíamos nem ao menos o que esperar desse vinho.

Iniciamos a degustação com um espumante apurar o paladar.

O Vinho: Piera Martellozzo Espumante Bianco Incontri

Na taça apresentou uma bonita cor palha claro com perlage fina e persistente.

No nariz, logo de cara apareceram aromas de fermento, seguidos de maçã verde e pêra, com um toque cítrico.

Na boca era cremoso, com uma acidez correta, com uma boa persistência e um retrogosto frutado, com destaque para o melão.
Apesar de ser um Extra Dry, tinha um paladar levemente adocicado.
Um vinho macio e equilibrado. Delicioso.

Após terminarmos o espumente, eis que o Tiago nos apresenta o tão aguardado vinho chinês.

Como o rótulo era 90% escrito em kanji, conseguimos extrair poucas informações sobre a garrafa.
Algumas informações adicionais e a foto da garrafa foram obtidas diretamente no site do produtor, que também informava que a empresa Changyu existe desde 1892 e a produção de vinhos é realizada em parceria com o Chateau Castel, da França.


























O Vinho: Changyu

Safra: Ao contrário da foto que pegue no site deles, nossa garrafa não marcava nenhuma data de safra, ou se marcava estava em kanji.

Uvas: No contra rótulo conseguimos identificar somente a Cabernet Gernischt, mas no site do produtor consta que é um assemblage de Cabernet Gernischt com Cabernet Sauvignon.

Comentários:

Na taça tinha uma cor vermelho bem translúcido.

No nariz foi uma sensação diferente, com um leque aromático interessante e com boa potência, onde destacamos o cravo, especiarias, caramelo e curiosamente pouquíssima fruta e um forte aroma herbáceo que dava até um certo frescor ao vinho.

No primeiro gole tudo mudou.
Um corpo levíssimo com bons taninos e uma acidez correta mas com a baixíssima persistência e pouca complexidade de sabores acabou ficando um vinho muito ligeiro, que “desaparece” na boca.
Destacamos somente alguns sabores de frutas vermelhas como groselha e framboesa, nada mais que isso.

O comentário que mais conseguiu definir esse vinho foi que parecia que estávamos sentido os aromas de um vinho e bebendo outro vinho completamente diferente, de forma que os dois não harmonizavam para formar um bom conjunto.

Mas como sempre, valeu muito pela nova experiência, rever os amigos, o bate papo e pelo espumante que estava delicioso.

Agora, pelo que constatamos no Changyu a conclusão que chegamos unanimemente é que a China ainda tem muito para aprender na arte de fabricar vinhos finos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Vovó Francesca - Por Elmo Dias

Vovó Francesca - Por Elmo Dias
Férias de inverno.

Nos anos 80, os carros e as pessoas eram cafonas. Mas minha vó Francesca não.

As aulas acabavam, eu ficava numa ansiedade louca. Ficava todo dia perguntando pro meu pai que dia ia nos levar pra casa da vó.

Vovó Francesca poderia facilmente ser a dona Benta, lhe faltavam talvez uns 40 quilos pra isso, mas na minha mente ela tinha bochechinhas rosadas, coque e óculos redondos.

No espelho, contudo, rosto vincado, nariz de imperador romano, olhos pequenos de felino.

Arrastava os érres como se fossem jotas, italianice empedernida.

Praguejava quando o cachorro virava o lixo, quando a chuva vinha de repente com as roupas no varal, e quando a gente metia o dedo no que ela estava cozinhando.

Eu tinha a prerrogativa deliciosa e ao mesmo tempo árdua de ser o neto mais velho.
O mais velho pode mais, bate mais, fala mais, mas ao mesmo tempo responde por tudo.

Disso minha vó tirou uma conclusão pra lá de polêmica: ela podia, já aos meus 10 anos de idade, me dar vinho.

Ela tinha um cálice de vidro grosso, com losangos minúsculos na base do bojo, a haste sextavada e o pé redondo.

Eu era fascinado por aquela tacinha pequena, já fosca, única na cristaleira.
Minha vó sempre dizia que era de Murano, na Itália, mas meu avô gritava sempre ao fundo, indignado: “BUGIA!!”

Ela ria, divertida.

Marcante era saber que a questão do vinho era só nossa.

Era repentino.

Lá estava ela, depois de ter sovado muito com os dedos nodosos uma massa de focaccia, esperando que dourasse no forno à lenha.

A focaccia então, depois de um tempo, saía do forno pelando.

Ela colocava na mesa de madeira, fazendo com que a cera sem brilho da madeira suasse ao redor do disco de massa.

O cheiro me tirava pra dançar, e ela já estava, alegrete que só, buscando o cálice e o gaRafão (com só mesmo um érre na dicção), pra derramar ali o vinho tosco, escuro, cheiro de uva madura.

Servia o vinho enquanto rasgava um pedaço da focaccia, soprava fingidamente e me dava, esperando pra me ver ficar jogando o pão quente de uma mão pra outra e depois ainda tentar comer sapecando a língua e o céu da boca.

“Quente, quente!” – eu exclamava, como se não tivesse livre arbítrio pra colocar a massa fumegante na mesa e esperar esfriar.

E alguém consegue?

Enquanto ria só com os olhos, a boca sempre sisuda, já tinha colocado meio copo d´água e completado com vinho, pra eu esfriar a situação.

“Bebe, Ciccioto” – ela se aprazia, reconhecendo a quadrilha de insolentes que a gente havia formado. Adorava cada segundo da transgressão feminista e deseducadora que cometia.

Eu tomava um gole tímido, nariz enfiado na borda do copo, e me sentia o rei das Astúrias. Era o momento em que ser o neto mais velho era meu luxo, minha opulência emocional, bebendo vinho aos dez anos.

Depois, contava pros primos e irmãos, como se tivesse abatido o Minotauro com um estilingue.

Eles me invejavam e tentavam me destruir, contando pros outros adultos.

Vovó Francesca então bradava, irada, inabalável: “Mentira é pecado!!”

Eu, sentado em algum lugar, apenas portava minha auréola, olhos de candura, com apoio político quase imbatível, desdenhando a posição da criançada mais nova.

Era pra lá de bom ser o neto mais velho.

Vovó Francesca não viveu pra ver a Malbec virar pandemia, e nem pra ver o Casillero del Diablo ser vendido em Paris.

Mas eu sobrevivi pra derramar um pouco de Guigal naquela taça de vidro grosso, e reverenciar o coração que pulsa em cada cálice de vinho bebida com quem se ama.

Salute!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Terramater Limited Reserve Cabernet Sauvignon


Depois de algum tempo viajando, aos poucos vou retomar as atualizações do blog, começando por mais um dos vinhos que comprei no empório vinis, lá em Itatiba.

Agora só me sobraram as garrafas da linha superior, a Limited Reserve e resolvi começar pelo bom e velho cabernet sauvignon.

O Vinho: Terramater Limited Reserve

Safra:2006

Uvas:100% Cabernet Sauvignon

Comentários:
Na taça apresentou uma bonita coloração rubi profundo com reflexos violáceos e uma aura levemente alaranjada, mostrando sinais claros de evolução.

No nariz mostrou aromas potentes que lembravam frutas maduras, ameixas, bastante baunilha com um toque de defumado e de especiarias.
Os aromas são tão potentes que poder ser sentidos mesmo longe da taça.

Na boca tinha corpo médio com taninos bem amacidos e uma acidez corretíssima.

Não deixa amargor final na boca e deixou um fundo de taça com aromas frutados e defumados.

Na minha opinião, este é um ótimo vinho, elegante e equilibrado.Um estilo de vinho que eu adoro e vale cada centavo pago nele.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Villaggio Grando - Chardonnay 2008


Nos planaltos da região de Herciliópolis, Santa Catarina, existe uma vinícola que foi iniciada lá pelos anos 90 e desde então vem produzindo bons vinhos nacionais a partir de seus vinhedos situados a 1300m de altitude.

Esta é a Villagio Grando.
Mais uma vez, em minha busca por novos rótulos acabei adquirindo 3 garrafas dos vinhos produzidos por eles que aos poucos vou postando aqui. O primeiro é este...

O Vinho: Villaggio Grando Chardonnay

Safra: 2008

Uvas: 100% Chardonnay

Comentários:
Na taça apresentou uma cor dourada, muito bonita, brilhante e límpida.

Os aromas foram de média intensidade, boa persistência e eram levemente adocicados, lembrando abacaxi e pêssegos em calda com alguns toques minerais.

Na boca era levemente untuoso, com um corpo leve e uma boa acidez, deixando o conjunto bem equilibrado e a boca salivando mais a cada gole.

Ao meu ver, a Villaggio está fazendo um bom trabalho lá no sul e por esse motivo está conseguindo produzir este vinho, que é simples mas com um conjunto que agrada bastante.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Marco Luigi Espumante Moscatel

Como já disse em um post anterior, nossos amigos da Vinicola Marco Luigi foram muito gentis e atenciosos em enviar algumas garrafas para eu conhecer.

Particularmente este vinho eu já conhecia e já havia gostado em uma ocasião anterior.
Esta serviu só para confirmar oque eu já sabia...

O Vinho: Marco Luigi Espumante Moscatel

Safra: 2007

Uvas: 100% Moscatel

Comentários:
Um vinho com a coloração palha, sem reflexos e uma perlage média e não muito fina.

No nariz, logo de cara apareceram aromas adocicados, com toques cítricos e notas de maçã verde e uva itália.

Na boca mostrou-se um vinho adocicado mas sem ficar enjoativo, com uma baixa acidez, formando um conjunto equilibrado que acaba agradando muito, inclusive quem não é muito fã de vinhos.

Na minha opinião este é um dos espumantes moscatel que mais me agradaram até hoje. Fácil de beber, adocicado e macio. Vale a pena provar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um Gole no Mar - por Elmo Dias


Um Gole no Mar - por Elmo Dias

Acordei muito cedo, com aquela sensação de suplício e de injustiça que só acordar com muito sono pode trazer.

Já deveria estar acostumado, pois o pescador é um tolo auto-punitivo, um masoquista, por assim dizer, já que escolhe como passatempo algo que sempre se faz de mãos sujas, acompanhado de mosquitos ou de sol causticante, e que tem um resultado quase incerto.

A tralha estava arrumada, a máquina de fotografia a postos, mas dessa vez eu levava umas coisas diferentes: uma faca de sashimi, uma pinça de aço, uma mistura pronta de shoyu, raiz forte e gengibre picada e uma garrafa de Terrunyo Sauvignon Blanc 2007.
Ao chegar na praia, fiquei olhando os barcos mal pintados, de cores vivas e velhas, o vento frio de Guaratuba maltratando minhas canelas.

Seu João Galinha, caiçara de sombrancelhas espessas e cheios de pelos no nariz, trazia a traineira de madeira em direção da praia, pra como sempre jogar a proa em cima da areia pra gente subir.

“Bom dia, só três hoje?” - ele perguntou, olhos negros, afundados no couro curtido pelo sal e pelo sol.

“Só, mas quem insiste é que tem sorte!” - eu tentei rir, o cheiro frio da maresia me tomando as ventas.

Subimos com dificuldade no barco, a madeira inchada, as poitas de ferro cobertas de ferrugem marrom, as redes enfiadas sem ordem embaixo da amurada de escolher camarão.
César e Marcos, meus companheiros de madruguice, sentaram e começaram a tentar arrumar suas varas para fundeio, enquanto o motor de centro enchia nossos ouvidos com seu bater de pistões e nossos narizes com o cheiro de diesel.

A baleeira de nove metros moveu-se como que pedindo licença às dezenas de barcos dorminhocos na entrada da baía de Guaratuba, e prumou o mar aberto, passando pela barra e pelos bancos de areia.

Sempre quis pensar no seu João Galinha como o Lobo Larsen da literatura, mas suas camisetas apertadas na barriga proeminente e dura e seus chinelos de dedo lhe tiravam qualquer mérito para ser chamado Velho Lobo do Mar.

Coloquei o vinho dentro do isopor , e fiquei lembrando das críticas do Patrício Tapia rasgando elogios ao Sauvignon, ao mesmo tempo que tirava o vinho de sua nobreza, o colocando pra conhecer a vida real, ao lado da garrafa térmica desgastada de café do pescador, alaranjada e feia.

Por ali, siris secos, escamas avulsas e linhas de pescar velhas.

Era um desrespeito divertido ao ótimo vinho, mas tudo aquilo ainda dependia do peixe, fosse ele qual fosse.

Equipamento pronto, desci a linha na popa do barco, e deixei a isca artificial de barbela comprida e corpo fusiforme negro penetrar a flor da água.

Dei uns trinta metros de linha, e travei a manivela da carretilha, fazendo com que a ponta da vara envergasse pelo mergulho que a isca fez ao longe, descendo na coluna de água.

O sol nascia nas minhas costas, o vento salgado esfriava minhas orelhas, e eu, estranhamente, nem queria pegar nada relevante naquela hora.

Me sentia pescando em função de uma garrafa de vinho, uma sensação curiosa e desconfortável, quase uma vigilância sem autor.

Vinte minutos depois, o soco.

A ponta da vara dobrou-se para baixo, gritei para o caiçara colocar na lenta.
A linha começou a espremer-se pra fora da carretilha, usando seu freio.

No corrico, a pegada do peixe quase sempre parece que a garatéia colidiu com algo, e não que algo a pegou.

Mas depois você começa a recolher, usando sua força e a velocidade do barco, em marcha lenta, tem a deliciosa sensação de que algo vivo está na ponta da linha.

O coração sempre se manifesta, em taquicardia ansiosa.

Curvei-me algumas vezes, recolhendo a linha enquanto trazia o peixe com o movimento do corpo e da vara, me lembrando que tudo nessa era da humanidade parece ser técnica aplicada.

Bom aluno, depois de uns minutos pude ver as costas pretas da cavala, o corpo longo e roliço, tentando livrar-se da isca.

Subiu do fundo, agitou-se, correu entre os reflexos de luz fraca na água verde, e por fim veio ao barco.

Rimos, comemorando, com as zombarias naturalmente rudes de pescadores amadores, e joguei o belo peixe no gelo.

Sentei-me na madeira da amurada, e fiquei olhando os olhos grandes e os dentes afiados e numerosos na boca do bicho.

Os dentes dos peixes sempre me fascinaram, desde menino olhava os peixes assados e ficava roçando os dedos em sua dentição.

De qualquer modo, era cedo demais, e a cavala não servia para o que eu queria.
O barco continuou compenetrado em nos levar mais longe, estourando pelo cano de escape seus rebombos barulhentos, até que seu João Galinha diminuiu a marcha, enquanto olhava para terra dos dois lados que a víamos, no ângulo de noventa graus que as praias de Guaratuba e Caiobá faziam.

Muito antes do GPS, os pescadores artesanais cruzavam visualmente elementos que podem visualizar para encontrar os pesqueiros.

Nosso guia achou o ponto, desligou o motor e jogou a âncora.

Fiquei observando os nós que fazia com a corda peluda da poita, depois a corda se esticando, a madeira do barco toda estalando, como que se alongando.

A sensação é sempre de que a corda vai estourar ou o barco vai desmontar.

Paramos sobre o casqueiro, um local onde a lama do fundo está coberta por pedras pequenas.

Espetamos nossos camarões mortos no anzol e descemos as linhas.

A chumbada bate no fundo, você dá uma volta da manivela, deixa a linha tensa e espera o “choquinho“.

Todo pescador é um moleque sonhador, que tem a nítida sensação de que um peixe de duzentos quilos está de boca aberta no fundo, e que sua linha vai cair direto na goela do bicho, e, na primeira tentativa do dia, algo grandioso vai acontecer.

Coisas realmente acontecem, mas só se ouve contar e nunca se presencia.

Ficamos ali, naquele silêncio compenetrado, esperando o tremelique para a fisgada.

Caí em absorção de pensamentos, e olhei para o rosto redondo do caiçara, que desenrolava uma linha de mão grossa como uma corda de raquete.

Seu João Galinha, há mais de vinte anos no mar, um dia me confessara que não sabia nadar.

Nem nunca tentara.

Ele conhecia a condição do tempo que amanheceria pelas estrelas e pelas nuvens, sabia truques para pegar todo tipo de peixe, podia contar histórias magnéticas sobre peixes centenários e gigantescos, mas não sabia nadar.

Depois de algum tempo, os peixes apareceram.

Esparsos, pequenos e médios, divertidos, fujões, inconstantes.

O sol fez seu trabalho, esquentou nossos bonés e avermelhou nossa pele, mas nada do peixe que eu queria.

Robalos, pescadas amarelas, linguados, atuns, nenhum desses se pegava ali.

Comecei a questionar meu plano com o Terrunyo.

Mais ou menos quando eu pensava em decidir por tomar o Sauvignon sem peixe, um cardume de betaras nos acolheu.

Como se diz na pescaria, não dava tempo.

A isca não chegava ao fundo, era tragada em corrida antes que a linha esticasse com o peso da chumbada.

Pique de peixe.

O frenesi trazia duas, três betaras de cada vez.

Como de costume, eu devolvia praticamente todas, exceto as que me pareciam parrudinhas.

Em dez minutos, as quatro linhas na água já haviam recolhido umas 50 betaras, e soltado, mediante impropérios exigentes que eu fazia, umas outras 50.

Quando o ritmo diminuiu, a adrenalina foi baixando, os espaçosde tempo entre as mordidas ficando maiores.

Eu estava já pensando em mudar de pesqueiro, quando uma pancada me deu um leve susto na linha.

Fisguei e comecei a brigar com o peixe.

A carretilha zunia preguiçosa, a linha corria sem tanta velocidade, mas aquilo não era uma betara como as que estavam no cardume.

Quatro ou cinco minutos depois, o corpo verde do baiacu-arara mostrou-se ao sol.

“É um jalefa de um baiacu!”- gritou seu João Galinha - “não vai perder o bicho!”
O peixe brigou mais um pouco, o recolhi com o passaguá.

O papo de um branco creme muito suave inchou muito, ficou do tamanho de uma bola de futebol de salão.

Os dentes maciços, que lhe fazem parecer ter um sorriso de coelho, não haviam conseguido cortar a linha.

“Vai querer?” - perguntou seu Joao Galinha, nitidamente interessado no peixe - “isso é a melhor carne que tem”.

O bicho devia pesar uns 3 quilos. Peguei minha faca pra cortar o couro, mas vi que não iria conseguir nada com uma faca de sashimi.

“Você sabe limpar baiacu?” - me perguntou o pescador - “se estourar a bolsa de veneno perde a carne toda”
Como um garoto contrariado, dei o peixe pra ele.

Degolou o baiacu, com uma faca velha de pouco fio, e depois tirou orgulhoso a bolsa preta das tripas do bicho.

“Tá aqui o veneno” - ele exibiu o saquinho escuro, enquanto terminava de transformar o peixe num bloco sólido de carne branquíssima.

“Vai levar assim?” - me passou o filé.

“Não, vamos comer agora..!”

Me olhou desconfiado.

Peguei a tábuazinha de madeira que tinha trazido, firmei na superfície da proa, e fiz as fatias mais finas que pude.

A carne parecia pulsar.

Joguei as fatias no gelo de um isopor pequeno e limpo que havia trazido, e então coloquei a mistura de shoyu, raiz forte e gengibre num tupperware.

Busquei o vinho, tirei a rolha com meu canivete.

“Marcos, César, larguem essas varas, quero que experimentem isso”.

Peguei umas taças de vidro grosso que tinha trazido, derramei o vinho de amarelo sutil nas taças.

Dei uma pra cada um, incluindo seu João Galinha.

“Gosta de vinho?” - perguntei.

“É doce?”

“Experimente”

Fez uma careta com a acidez.

Tirei as fatias de baiacu do gelo, mergulhei no molho.

Coloquei tudo sobre a tampa do motor e disse que se servissem.

Cheirei o vinho, frutas cítricas, algo vegetal.

Olhei para o fim do mar, marzão espelhado, o horizonte abotoando céu e mar, um azul macio.

Um silêncio absoluto, o ar tão puro que chegava a afogar a respiração.

Dei um gole cheio, deixei a Sauvignon bem fria inundar a boca.

Olhei para o seu João Galinha, e brindei, rindo.

Ele levantou a taça, junto com os outros.

“E isso é pra beber com baiacu?” - ele perguntou, rindo, sarreando…

“Ô se é, ô se é…” - eu respondi, espetando uma fatia da carne tenra, viva e temperada, mastigando-a com certa luxúria, pra depois deixar o vinho fresco cobrir minha língua com toda a autoridade do terroir e da uva.

Elmo Dias é advogado civilista, presidente da Afavep, pescador, tenista, enófilo e cronista nas horas vagas (bem vagas)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Vinho e a Pintura! Toulousse-Lautrec

Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa, nasceu em Albi, na França, em Novembro de 1864 e morreu em Setembro de 1901. Retratou como ninguém a vida boêmia de Paris. O que será que tinha nesse copo vazio?

Fonte:www.papodevinho.blogspot.com