quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Uma Última Tacinha - por Elmo Dias


Uma Última Tacinha - por Elmo Dias

A vida toda tinha sido assim.
Não me surpreendia que, depois de quase um ano, eu encontrasse aquele envelope no bolso do meu sobretudo mais velho e marcado.
Um envelope de papel cartão, curto, retangular, rude.
Na face do envelope, a letra marcada, feia e direta de meu pai.
Sempre fora assim, a vida dele havia sido assim.
Sem rodeios, mas sempre com conteúdo.
Era início da noite, lusco-fusco no céu do sul, janela aberta, vento gelado no rosto. Tremi.
A adrenalina, a culpa, o remorso sem nexo, tudo me invadiu.
Sentei no baú dos cobertores, no pé da cama.
Vagarosamente, sem pressa, sem coragem, peito pressionado, puxei a folha de papel de dentro do envelope.
As letras fundas e pequenas sussurraram a voz tão conhecida.

“Filho, com as botas sujas daquela terra salpicada de pedrinhas brancas, só pude me lembrar de você. O único do meu sangue que suportou minha falsa verve de conhecedor. Te deixo um litro e meio da tua paixão. Te amo. Seu pai, Paolo.”

No verso da folha, um desenho de traço infantil, apontando o terceiro degrau da escada da casa onde eu havia crescido.
Jantei com os olhos fixos e com a ansiedade embrulhada dentro do estômago.
Os sons da minha casa, mulher, filha, televisão, devagar foram morrendo.
A noite comeu a cidade, e tudo o que se ouvia era o som da chuva nas folhas da palmeira do jardim.
Duas da manhã, liguei o carro e fiquei estático, sozinho dentro dele, durante minutos a fio, me enfrentando, pensando se eu já era homem pra aquilo tudo.
O vidro embaçava, o pulso pulava.
Deixei que a infância empurrasse o acelerador.
Depois de alguns quilômetros vendo as luzes da cidade perderem a forma no vidro molhado, desci do carro, enfiei o rosto nas golas do sobretudo me protegendo do frio e caminhei pela calçada rachada da casa velha.
A chave rodou no tambor da fechadura, a porta gemeu, acendi a luz solitária.
Revelaram-se os contornos e a herança afetiva do moleque.
Sentei no terceiro degrau da escada, a tábua pesada de madeira escura.
A única parafusada.
Fucei as gavetas da despensa, achei a chave de fenda com o cabo já bem gasto.
Desparafusei a madeira com tanto e ao mesmo tão pouco esforço, tentando entender se o rangido era da madeira ou da minha alma.
Puxei o degrau, encarou-me uma caixa de metal velha, poeira lhe dando a cor.
Eu havia me fascinado a vida toda com rótulos, safras, produtores.
História do vinho, ícones, harmonizações.
Leilões, encontros, ostentações.
Naquele momento, contudo, a única estampa que queria ver na garrafa era o sorriso debochado de meu pai, mais uma vez.
O velho sarcasmo, o amor enrustido.
O abraço tímido, o beijo raro, os olhos crus, como nenhum outro par de olhos.
Passei a mão pelo pescoço, pra desfazer o nó dentro dele.
Meus cabelos grisalhos estapeavam minha consciência, me gritando que nenhum gole de qualquer vinho valia o que eu queria de novo.
Nenhuma safra, nenhuma garrafa, nenhum vinhedo cobria o preço.
Mãos sujas de pó, ergui a garrafa, limpei com a manga do sobretudo.
O vidro escuro trazia uma peça de papel rústico, sem desenhos, sem marca, quase sem personalidade.
No pé do rótulo, contudo, letras de tinta escura, até borrada em alguns trechos. A frase sentenciava o fato, a compra no dia do meu aniversário.

“February fifteen, 1992, direct from the oak. Opus One Winery.”

Coloquei a garrafa no colo, olhei as paredes e a tinta puída que se segurava nelas.
Vi o gurizito correndo pela casa, sempre aos gritos da mãe, pedindo cuidado com a cristaleira, os vasos, os quadros, os espelhos.
Na saleta, na poltrona marrom, meu pai sempre acarinhava os próprios pés no tapete persa horroroso, lendo seu livro, taça ao lado.
Os filhos alvoroçavam os cômodos, ruidosos, até que o pai pigarreava ao fundo.
O momento onde a bagunça congelava.
Nunca, nunca deixe o pai levantar da poltrona.
Olhei para a mesa de jantar. A fotografia do cenário dos domingos, onde ele sentava na ponta.
Nós já adultos, minha mãe servindo seu ragú com polenta.
Só duas taças de cristal na mesa, minha e dele.
“O populacho que beba em vidro” – ele sempre dizia, e sempre se divertia, sob protestos das mulheres.
Me olhou tantas vezes, a barba branca começando a ressurgir depois do barbear da manhã, olhos já um pouco baços, tirando sarro das minhas notícias do Priorato, do renascer da Argentina, dos Pinots da Nova Zelândia.
Enfiava a colher na polenta com ragú, enchia a boca e me falava ainda mastigando que vinho bom de verdade amarrava a boca.
Lembrei do Fábio Júnior pedindo pro pai sentar que o jantar estava na mesa.
Lembrei de como ele já velho saiu pra chorar sozinho quando viu minha filha no vidro da maternidade.
Lembrei do primeiro dourado que pesquei na vida, o moleque gritando ao lado dele.
Lembrei dele emburrado depois que o Brasil perdeu em 1982.
Lembrei, lembrei, lembrei...
Fiquei ali, segurando aquela garrafa, tentando imagina-lo, ele que não falava meia palavra em inglês, negociando aquela garrafa na vinícola.
Limpei o pescoço molhado das lágrimas na gola da camisa, coloquei o degrau de volta, voltei pra casa.
No outro dia, pedi pra minha esposa um ragú com polenta no domingo.
Chamei todo mundo.
Comida pronta, mesa posta e cheia, minha mulher trouxe o ragú borbulhando na panela de ferro da minha mãe.
Peguei a magnum, coloquei sobre a mesa.
Olhei meus irmãos, abri a garrafa, sorri amargurado, servi a todos.
Servi também a taça de cristal pra cadeira vazia na ponta da mesa.
Minha filhinha, vendo o vinho servido, ergueu seu copinho de guaraná e repetiu as palavras de tantos e tantos domingos:
“U pupulaxo que beba in vido”.
Bebemos.

Elmo Dias é advogado civilista, presidente da Afavep, pescador, tenista, enófilo e cronista nas horas vagas (bem vagas)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Vinho e a Pintura! Leonardo da Vinci

"L´ultima Cena" (A Última Ceia) e "La Gioconda" (A Monalisa), os dois de Leonardo Da Vinci, são os quadros mais conhecidos do mundo. Um gênio reconhecido em várias áreas. Era anatomista, engenheiro, matemático, músico, naturalista, arquiteto, inventor e escultor. Nasceu em 1452 não se sabe exatamente onde, mas se sabe que foi próximo a Florença. Morreu na França em 1519.


O quadro mostra a última ceia de Cristo, no momento em que o vinho representa o sangue e o pão representa o corpo de Jesus.
 
Fonte: http://www.papodevinho.blogspot.com/

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Adega Chesini Gran Vin 2005

Este é um vinho produzido no Rio Grande do Sul pela Adega Chesini , que gentilmente nos cedeu duas amostras do seu vinho top para que pudéssemos conhecê-lo.

Assim que a garrafa chegou, não pude deixar de notar o cuidado da empresa com a apresentação do produto.

Um rótulo bonito, bem trabalhado e uma garrafa grossa.
Deixei a garrafa na adega por alguns dias mas logo encontrei uma oportunidade para degustá-lo.

O Vinho: Chesini Gran Vin

Safra: 2005

Uvas: 100% Cabernet Sauvignon

Comentários:
Na taça apresentou uma cor violeta profundo, quase negro, denso e com aura violácea.

Aromas de média intensidade que lembravam frutas vermelhas maduras, algo levemente adocicado e notas de chocolate e amêndoas.

Na boca, no primeiro gole mostrou um toque levemente cremoso, com corpo médio, taninos presentes de forma correta e uma boa acidez, criando um conjunto bem equilibrado.

Deixou na boca um delicioso retrogosto frutado e no fundo da taça restaram aromas de defumado e café.

Na minha opinião este é um ótimo exemplar de vinho nacional, que consegue provar que o Brasil tem potencial para produção de bons vinhos e só depende dos produtores encontrarem a melhor forma para chegar nesses bons resultados.

Vale a pena provar!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vinho e Música!



Alguns dias atrás o nosso confrade Marcelo, do blog Vinificando me convidou para participar de uma “harmonização” entre vinho e música.

A brincadeira consiste em tentar combinar um vinho sugerido com uma música de sua escolha. Achei a idéia bem interessante e como adoro as duas coisas, aceitei prontamente o convite do Marcelo para ver no que poderia resultar essa combinação.

Abaixo segue a descrição do vinho que o Marcelo me enviou e a minha música para combinar com ele. Visite também o Vinificando para ver o vinho que eu escolhi e a música que o Marcelo sugeriu.

Côtes-du-Rhône 2005 (E Guigal)


Quero apresentar, para este novo desafio enomusical, um vinho que me agrada sempre e que é, para mim, um exemplo de um feliz encontro entre tradição e inovação em Bordeaux. Refiro-me ao Tinto da E Guigal, Côtes-du-Rhône. Sob a batuta do competente Marcel Guigal, que assumiu a vinícola em 1961, após a doença de seu pai Etienne Guigal, a E Guigal vem aprimorando cada vez mais os seus vinhos mais básicos, demonstrando cuidado e atenção para oferecer ao mercado algo que seja de real qualidade, a despeito do preço.

Côtes-du-Rhône 2005, produzido com 55% Syrah, 35% Granache, 8% Mourvèdre e 2% outras, estagiou por 18 meses em barril de carvalho. No aspecto visual mostra-se com um vermelho intenso e brilhante. Boa viscosidade. O olfato é marcante, iniciando com frutas maduras, caminhando por notas florais e terminando com carne defumada e toque sutil de pimenta. Na boca (seu ponto forte), é encorpado e muito bem estruturado. Textura aveludada, seus taninos são perfeitamente domados, sem omitirem-se. O final é longo e levemente adocicado.

Eis aí um belo representante da França que, apesar de não ser uma opção propriamente barata, vale a pena ser conhecido.

Marcelo Oliveira


Como o Marcelo descreveu o vinho como sendo “um feliz encontro entre tradição e inovação”, resolvi escolher um artista que também tem sua parcela de tradição, representada pelo Rythm & Blues, mas com um grande toque de inovação, representado pelas suas “pegadas” de Rock´n Roll.

Estamos falando de Stevie Ray Vaughan, norte americano que nasceu em Dallas no dia 03 de outubro de 1954.

Stevie iniciou sua carreira tocando contra-baixo na banda do seu irmão Jimmie Vaughan, até que adquiriu experiência e resolveu formar sua própria banda, o Double Trouble.

A música escolhida é o clássico “Pride and Joy”, faixa do disco “Texas Flood” primeiro disco de Stevie Ray Vaughan & Double Trouble, lançado em 1983.

Seu estilo musical foi fortemente influenciado por nomes do blues e do rock, como Albert King, Jimi Hendrix, Freddie King e Albert Collins.
Stevie morreu em 27 de agosto de 1990, vítima de um acidente de helicóptero quando seguia para uma apresentação no Alpine Valley Music Theatre, onde na tarde anterior havia se apresentado ao lado de Robert Cray, Buddy Guy, Eric Clapton e seu irmão Jimmie Vaughan.

Stevie Ray Vaughan se foi, mas os seus clássicos como “Pride and Joy” permanecerão vivos para sempre.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Aromas Inconfundíveis nos Tintos de Maipo e Rapel - por Ikuyo Kiyuna

Aromas inconfundíveis nos tintos do Maipo e Rapel - por Ikuyo Kiyuna

A minha grande lição, em aromas dos tintos de Maipo, foi com o vinho chileno Stella Aurea, numa degustação double blind, durante a aula de Curso Básico da ABS-SP, em 2006.

Eu acho que o professor teve pena de mim, me vendo cheirar como uma analfabeta tentando ler V – I – N - H – O, pois me disse com ar compassivo do alto da sua cátedra: “aliás, este é o aroma típico dos Cabernets do Maipo”.

Após gastar meia hora para entender, gravei no fundo da minha memória olfativa este aroma inconfundível (cassis + goiaba vermelha) que aparece até nos grandes tintos como o Seña (neste caso, aliás, como "bomba").

Depois disso, fiquei craque em "aroma de maipo", na minha gíria. Numa degustação às cegas na aula de tintos com Alexandra Corvo (foi em 2007 ou 2008?), eu comentei que o tinto era de Maipo, mas na verdade era de Rapel.

Foi a segunda lição: gravei na memória olfativa o "aroma de rapel", uma versão mais light, tipo clima temperado de Maipo (cassis + leve goiaba vermelha + herbáceo).

Com estas duas pequenas lições fundamentais, tive oportunidade de testar a minha expertise de (alguns) tintos do Chile. Numa degustação às cegas da nossa confraria - tema, o Syrah do mundo - identifiquei, entre os 10 vinhos, o Syrah do Chile.

Logo depois, teve degustação similar na ABS-SP e identifiquei de imediato o Syrah chileno. Um dos diretores, fera de degustação, comentou que nunca tinha visto um Syrah com este aroma e eu disse para mim mesma: pois eu já vi!

E finalmente, durante o ProChile (25/agosto/2009), degustando os vinhos com o mapa do Chile na mão, vi que os tintos chilenos apresentam quatro gradientes aromáticos básicos: o primeiro (vinhos do norte, perto de Atacama), o "aroma de maipo", "o aroma de rapel" e o quarto (vinhos do sul, de clima temperado). Os aromas 2 e 3 aparecem principalmente em Cabernet Sauvignon, mas em outras cepas tintas como Syrah ou Carmenère, em menor grau, mas detectável, uma vez apreendido.

Acho que este conhecimento é intransferível como uma experiência pessoal. E nem tão óbvio como foi aqui contado, pois com vinho, nunca é exato, repetível, definitivo: um mundo complexo e fascinante.

Ikuyo Kiyuna
Engenheira Agrônoma e Mestre em Economia Agrária. Detentora de Wine & Spirit Education Trust (WSET) Advanced Certificate in Wines and Spirits emitido pela Qualifications and Curriculum Authoriy de Londres.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Vinho e a Pintura! Giuseppe Arcimboldo

Nesta tela chamada «Autunno» (Outono) Giuseppe Arcimboldo que nasceu na Itália, provavelmente em 1527 e morreu em 1593 (também provavelmente), as uvas representaram os cabelos, a cabeça coroada lembra antigas representações de Baco e o busto é representado por uma barrica. O início do surrealismo?
Fonte:www.papodevinho.blogspot.com

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Paso Del Sol - Sauvignon Blanc 2007


Durante a minha eterna busca por vinhos novos e diferentes, acabei encontrando o Empório Vinis, na cidade de Itatiba, onde fui atendido pela Mariana que me apresentou os vinhos produzidos pela TerraMater lá no Chile.

São vinhos bem interessantes, tanto que acabei comprando 5 garrafas variadas para provar. Aos pouco vou postar todos eles aqui no blog, começando por este branco.

O Vinho: Paso Del Sol

Safra: 2007

Uvas: 100% Sauvignon Blanc

Comentários:
Na taça mostrou uma cor palha, límpido e brilhante, com reflexos esverdeados.

No nariz surgiram aromas de boa intensidade que lembravam maçã verde e abacaxi, com notas cítricas, um toque herbáceo e com uma baunilha bem leve e bem integrada no conjunto.

Na boca tinha um corpo leve com uma acidez corretíssima, saboroso, equilibrado e com boa persistência.
A princípio mostra uma certa untuosidade, que logo é diminuída pela acidez.

Deixou no fundo da taça aromas acentuados de baunilha, revelando alguns meses de descanso em barricas.

Na minha opinião este é um vinho simples, mas mesmo assim se revelou uma ótima pedida para o dia a dia.
Vale a pena conhecer!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pericó Espumante Natural Brut

Este aqui é o terceiro e último vinho que adquiri da Casa Pericó e para minha alegria este rótulo também não decepcionou.

O Vinho: Espumante Natural Brut Branco

Safra: 2008

Uvas: 60% Cabernet Sauvignon e 40% Merlot

Comentários:
Na taça apresentou uma cor amarelo palha , límpido e com uma perlage fina e duradoura.

Aromas de boa persistência que lembravam maçã verde, com boas notas florais, minerais e cítricas.

Na boca tem uma boa persistência com uma boa acidez e um toque levemente adocicado e bem equilibrado.

Na minha opinião este é um ótimo espumante, elegante e equilibrado.
Boa indicação de aquipe de vendas da Casa Pericó.
Vale a pena provar!